Choque no golfe: contratação surpreendente da LIV expõe fragilidade da PGA, enquanto veteranos ensaiam retorno

Choque no golfe: contratação surpreendente da LIV expõe fragilidade da PGA, enquanto veteranos ensaiam retorno

21 Janeiro 2026 Não Por Fabíola Martins

A calmaria no mundo do golfe foi quebrada por uma jogada que pegou especialistas e torcedores completamente desprevenidos. A LIV Golf, liga apoiada pelo fundo soberano saudita, convenceu Michael La Sasso, uma jovem estrela em ascensão, a virar as costas para uma isenção valiosíssima no Masters. Essa movimentação não apenas reforça o time HyFlyers GC, capitaneado por Phil Mickelson, mas joga luz sobre um problema latente na estrutura atual da PGA Tour.

La Sasso, atual campeão individual da NCAA, tomou a decisão drástica de abandonar sua elegibilidade universitária antes mesmo de iniciar seu último semestre. Mais impactante ainda, ele abriu mão do convite garantido para o Masters de 2026. O motivo é claro: a oportunidade de garantir somas financeiras substanciais no circuito rival, que promete distribuir um fundo total de prêmios na casa dos 380 milhões de dólares (cerca de 2,2 bilhões de reais) em sua temporada de 2026. A notícia chocou insiders como Dan Rapaport, que tuitou incrédulo: “Essa ninguém viu vir”.

A estratégia da LIV e a vulnerabilidade da PGA

Embora La Sasso ainda não seja um nome conhecido do grande público, sua contratação é vista como uma manobra estratégica da LIV para explorar uma fraqueza no novo modelo da PGA Tour. Nos últimos quatro anos, em resposta à emergência da liga saudita, a PGA implementou mudanças profundas para recompensar melhor suas maiores estrelas. Essa tática funcionou para estancar a sangria de “peixes grandes” — a LIV não contrata um nome de peso desde Jon Rahm em dezembro de 2023 —, mas acabou penalizando talentos emergentes e jogadores que estão na fronteira da elite.

A LIV Golf tem capitalizado justamente nesse estreitamento de oportunidades. No ano passado, La Sasso participou de seis torneios da PGA como amador, mas passou o corte em apenas um, encontrando dificuldades para garantir um cartão definitivo. Sua assinatura marca o segundo ano consecutivo em que a LIV atrai um jogador diretamente da lista da PGA Tour University, seguindo os passos de Josele Ballester. Como La Sasso estava em terceiro lugar no ranking universitário — e apenas o primeiro colocado garante um cartão completo da PGA —, a rota alternativa tornou-se tentadora.

Graeme McDowell, campeão do US Open de 2010 e jogador da LIV, foi vocal sobre o assunto, sugerindo que a PGA está se tornando um “cemitério de promessas”. Segundo ele, a liga rival oferece um caminho legítimo para jovens superastros serem mentorados por lendas e terem um calendário garantido, fugindo da estrada perigosa e incerta do circuito tradicional, onde o acesso está cada vez mais restrito.

O retorno dos gigantes e a reação de Scheffler

Enquanto a LIV aposta na juventude, a PGA Tour recupera terreno trazendo de volta ícones consagrados. Brooks Koepka, pentacampeão de majors, será o primeiro a ser reintegrado através do novo “Programa de Membros Retornantes”, criado para permitir que vencedores de grandes torneios voltem após temporadas fora. Koepka deve fazer sua reestreia no Farmers Insurance Open, no final de janeiro, abrindo as portas para que outros nomes como Bryson DeChambeau — que entra em seu último ano de contrato com a LIV — e Cameron Smith possam seguir o mesmo caminho.

A volta de Koepka gerou apreensão sobre como os atuais astros da PGA reagiriam, mas Scottie Scheffler, atual número 1 do mundo, tratou de acalmar os ânimos. Demonstrando sua habitual compostura, Scheffler classificou o retorno como positivo tanto para o esporte quanto para o nível técnico da competição. “Acho que é bom para o Tour, especialmente a longo prazo. Adoro competir contra ele e estou ansioso para fazer isso com mais frequência”, declarou à rádio SiriusXM. Para Scheffler, a rivalidade fica em segundo plano diante da saúde do esporte e da elevação do padrão de jogo.

Ceticismo sobre a fusão e novas metas

Apesar dessa movimentação de jogadores entre as ligas sugerir uma possível normalização, a esperada fusão comercial entre as entidades parece cada vez mais distante. Rory McIlroy, falando durante o Dubai Desert Classic, foi taxativo ao afirmar que a PGA Tour e a LIV Golf cresceram “distantes demais” para formarem uma aliança agora. Mesmo com o envolvimento pontual de figuras políticas como Donald Trump nas negociações, o acordo estrutural anunciado em 2023 não mostra sinais de avanço.

“Simplesmente não vejo um mundo onde isso possa acontecer neste momento”, disse McIlroy, ressaltando que, para uma reunificação ocorrer, todas as partes teriam que ceder a ponto de sentirem que perderam, quando o ideal seria todos sentirem que ganharam.

Enquanto a política do golfe segue travada, McIlroy foca em redefinir seus próprios objetivos. Após completar o Grand Slam na carreira, o norte-irlandês afirma que sua prioridade é encontrar alegria no processo, jogando apenas onde realmente deseja estar. Suas metas agora são específicas e ambiciosas: uma medalha olímpica e vitórias em campos tradicionais, como o British Open em St. Andrews ou um US Open em palcos históricos como Shinnecock ou Pebble Beach. “Os objetivos mudam”, refletiu ele. “Você continua encontrando novas coisas que deseja conquistar”.